
"Há os que dizem que sim e os que dizem que não. Ambos acreditam na sua verdade. Ainda hoje. Ele morreu? Não morreu? Regressou disfarçado ao reino, depois do destroço da batalha, e andou por aí, envergonhado, a ouvir o que diziam de si?… Um rei envergonhado, humilhado, arrependido, escondido, de tanta doidice que a sua orgulhosa juventude provocou até a perda da pátria. Onde se vira tal na história do mundo? Um império desfeito, abocanhado pela ambição das nações poderosas… O ficcionista não tem de acreditar, não tem de argumentar, aduzir provas. Tem de fingir que acredita e tentar levar o leitor, durante os instantes da leitura, a aderirem àquele fingimento… apesar de ser verdade que, um dia, em Veneza, ele apareceu… apesar de ser verdade que, um dia, em Sanlúcar, Filipe III mandou enforcar e espostejar e lançar aos cães um que se dizia ser ele… apesar de ser verdade que… e que… e que… como aqui dentro, neste livro, se verá."