
Excerto «Agora sim, levanta-se, chega o minuto M da maternidade. Pega na colher, enfia-me a colher cheia de leite e fibras na boca. Faço uma careta, mas acabo por ceder. A mãe imita-me o gesto por reflexo, a mão livre à volta do meu pescoço. Mergulha de novo a colher, sem afastar a tigela para não caírem pingos na toalha. Sem esforço, tiro-lhe a tigela da mão, nunca foi preciso muita força para a desapossar. Volto a sentar-me, vou tirando colheradas de leite e olhando para uma placa de bronze que representa um pescador dentro de um barco, pregada na parede. Um pescador dentro de um barco imóvel, o bronze imobiliza até o apelo marítimo. O bronze é capaz de imobilizar até o confronto com o desejo de viver. "Alguma notícia?" "Nada. Nenhuma mensagem, o telemóvel desligado." "O Diogo também não disse nada?" "O Diogo, o Diogo. Só tu é que ainda acreditas naquele sonso." A mãe volta ao seu lugar atrás da janela. Parece uma partícula de luz sem velocidade, nada a perturba. Pernas cruzadas, cotovelo no parapeito, olhos no horizonte azul, um ventinho fresco a brincar-lhe nas pontas do cabelo. Fala comigo como se me admoestasse por fumar demais; sente qualquer dúvida sobre a bondade dos outros como a reprovação da sua própria inocência.»