
Provavelmente, não há hoje boas razões para se falar de Jalalabad, de Kandahar ou de Mazar-i-Sharif. Ouvimos estes nomes quase diariamente associados a mortos e feridos. Conseguimos imaginar homens de barba e mulheres de burqa. Conseguimos até imaginar o cheiro a lixo às portas de Herat, onde «cheira tão mal como se tudo estivesse podre». Já não seremos capazes de imaginar, entre o cheiro a lixo, o perfume a rosas: «No meio do trânsito mais tóxico há rotundas com rosas lindas em Cabul.» Aquilo que aqui, a ocidente, a milhares de quilómetros de distância, é apenas um borrão sem nome, uma massa de ideias vagas e de lugares-comuns, toma a forma de gente concreta, ganha contornos, espessura, rosto. O facto de Alexandra Lucas Coelho escrever tão bem faz o resto. É o meio de transporte em que viajamos por um lugar aonde, é quase certo, nunca iríamos de outro modo.