
O poeta a que sumariamente me vou referir oferece-nos objectos perfeitos, inteiros, aos quais nada há que tirar ou acrescentar: a sua poesia é o que é; quero eu dizer: a sua forma e o seu conteúdo constituem um todo. A pequena perfeição é também perfeição. O poeta em questão é João Cabral do Nascimento. O livro, Cancioneiro, o mais importante por ele publicado nos últimos anos. João Cabral do Nascimento não tem notas altas na sua poesia: o seu canto é surdo; esse mesmo canto surdo que nos deu Camilo Pessanha, e que é uma das dominantes da nossa lírica: apurado sentido para os rumores da alma desencantada, agudo sentimento do belo irrealizado, do sonho impossível, da amarga solidão. É a voz essencial de alguns poetas, e que está na de todos os outros: o espírito pagão que reclama o seu lugar no génio nacional, e se debate vagamente numa arquitectura religiosa que não foi feita para esta mistura de escaldante sangue mediterrâneo e de nórdica aspereza e domínio de si que constitui, em grande parte, o português, e donde vem muito do seu drama. Cancioneiro é uma das mais belas expressões da faceta melodiosa e equilibrada do nosso lirismo contemporâneo. Não o acusem de estar à margem da vida: isso é a própria raiz da sua poesia, como tem sido de muitos outros portugueses. O que encontramos em Cabral do Nascimento é uma expressão cada vez mais depurada, de forma que surge cada vez mais nua a essência, perdendo cada vez mais o excessivo comprazimento na beleza da forma que a tolhia de princípio. E perante Cancioneiro temos de concluir que essa depuração está realizada; o que ficou de estesia gratuita é o necessário para que a sua poesia permaneça autêntica, pois a verdade dela contém forçosamente uma certa parte de inútil melodia. O canto de Cabral do Nascimento é frágil, mas todas as notas são autênticas. - Adolfo Casais Monteiro (1944)