
Em Itinerário de Pasárgada, Manuel Bandeira expõe o poeta em comoventes confissões de cunho pessoal e intelectual. Relembrando a infância no Recife e a mocidade no Rio de Janeiro, além de momentos marcantes de sua vida, este Itinerário é um testemunho imprescindível para a compreensão da trajetória deste grande poeta e escritor brasileiro. Bandeira voltou os olhos para o passado em busca do tempo perdido, de suas experiências e miragens e, em particular, de sua Pasárgada, espécie de palavra mágica que o acompanhou por toda a vida. A fixação surgiu aos quinze anos, quando o jovem estudante descobriu o nome dessa cidadezinha fundada por Ciro, nas montanhas da Pérsia. A partir dai, durante alguns anos ele viveu em Pasárgada. Mais de vinte anos depois, num momento de depressão e desencanto, uma frase de quase libertação surgiu em sua "Vou me embora pra Pasárgada". Símbolo de evasão, de "toda a vida que podia ter sido e que não foi", como em seu verso famoso, Pasárgada acabou se tornando uma identificação do itinerário da própria vida do poeta. Roteiro de uma vida, revivescência do passado, Itinerário de Pasárgada não e um livro de memórias no sentido tradicional. Franklin de Oliveira observou que se trata da "primeira biografia estritamente literária que se publica no Brasil - historia da formação de uma inteligência poética e não apenas relato de uma vida de poeta". Claro que essas duas vertentes se desenvolvem entrançadas, como os fios de um barbante, desde o momento em que Bandeira ganha consciência da vida, lá pelos três anos de idade, e se emociona assistindo a uma corrida de bicicletas. Mais tarde, identificou essa emoção circunstancial com a emoção de natureza artística. "Desde esse momento, posso dizer que havia descoberto o segredo da poesia, o segredo do meu itinerário em poesia", confessa. Esse itinerário poético, tal como o roteiro de sua vida, deu muitas voltas, que o memorialista evoca com graça e a insuperável simplicidade de seu estilo, desvendando para o leitor as mil e uma seduções de seu mundo, de sua Pasárgada.
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Manuel Bandeira foi desenganado pelos médicos por causa de uma tuberculose, aos dezenove anos de idade. O que provou ser um engano: ele viveu até os 82. Toda a sua poesia tem esse sentimento, em suas palavras, de "Toda uma vida que poderia ter sido e não foi". Ele foi um dos poetas nacionais mais admirados, inspirando, até hoje, desde novos escritores a compositores. Aliás, o "ritmo bandeiriano" merece estudos aprofundados de ensaístas. Por vezes inspira escritores não só em razão de sua temática, mas também devido ao estilo sóbrio de escrever. Manuel Bandeira possui um estilo simples e direto, embora não compartilhe da dureza de poetas como João Cabral de Melo Neto, também pernambucano. Aliás, numa análise entre as obras de Bandeira e João Cabral, vê-se que este, ao contrário daquele, visa a purgar de sua obra o lirismo. Bandeira foi o mais lírico dos poetas. Aborda temáticas cotidianas e universais, às vezes com uma abordagem de "poema-piada", lidando com formas e inspiração que a tradição acadêmica considera vulgares. Mesmo assim, conhecedor da Literatura, utilizou-se, em temas cotidianos, de formas colhidas nas tradições clássicas e medievais. Em sua obra de estréia (e de curtíssima tiragem) estão composições poéticas rígidas, sonetos em rimas ricas e métrica perfeita, na mesma linha onde, em seus textos posteriores, encontramos composições como o rondó e trovas. É comum criar poemas (como o Poética, parte de Libertinagem) que se transforma quase que em um manifesto da poesia moderna. No entanto, suas origens estão na poesia parnasiana. Foi convidado a participar da Semana de arte moderna de 1922, embora não tenha comparecido, deixou um poema seu (Os Sapos) para ser lido no evento. Uma certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, permeia sua obra, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver. Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente, e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra. A imagem de bom homem, terno e em parte amistoso que Bandeira aceitou adotar no final de sua vida tende a produzir enganos: sua poesia, longe de ser uma pequena canção terna de melancolia, está inscrita em um drama que conjuga sua história pessoal e o conflito estilístico vivido pelos poetas de sua época. Cinza das Horas apresenta a grande tese: a mágoa, a melancolia, o ressentimento enquadrados pelo estilo mórbido do simbolismo tardio. Carnaval, que virá logo após, abre com o imprevisível: a evocação báquica e, em alguns momentos, satânica do carnaval, mas termina em plena melancolia. Essa hesitação entre o júbilo e a dor articular-se-á nas mais diversas dimensões figurativas. Se em Ritmo Dissoluto, seu terceiro livro, a felicidade aparece em poemas como "Vou embora para Pasárgada", onde é questão a evocação sonhadora de um país imaginário, o pays de cocagne, onde todo desejo, principalmente erótico, é satisfeito, não se trata senão de um alhures intangível, de um locus amenus espiritual. Em Bandeira, o objeto de anseio restará envolto em névoas e fora do alcance. Lançando mão do tropo português da “saudade”, poemas como Pasárgada e tantos outros encontram um símile na nostálgica rememoração bandeiriana da infância, da vida de rua, do mundo cotidiano das provincianas cidades brasileiras do início do século. O inapreensível é também o feminino e o erótico. Dividido entre uma idealidade simpática às uniões diáfanas e platônicas e uma carnalidade voluptuosa, Manuel Bandeira é, em muitos de seus poemas, um poeta da culpa. O prazer não se encontra ali na satisfação do desejo, mas na excitação da algolagnia do abandono e da perda. Em Ritmo Dissoluto, o erotismo, tão mórbido nos dois primeiros livros, torna-se anseio maravilhado de dissolução no elemento líquido marítimo, como é o caso de Na Solidão das Noites