
Concluindo a tetralogia "Quarteto Áspero", composta por "Maçã Agreste", "Somos Pedras Que Se Consomem" e "O Amor Não Tem Bons Sentimentos", "A Minha Alma É Irmã de Deus" traz de volta os aspectos marcantes que permeiam toda a obra de Raimundo Carrero, como o caráter religioso extremamente forte, em contraste com o profano e o pecaminoso, a narrativa em tons trágicos e a cuidadosa construção de personagens elementares, quase bíblicos. O autor narra a história de Camila, uma jovem solitária que quer ser santa para desfilar no exército das onze mil virgens do Paraíso. Numa tarde de domingo no Recife, ela conhece o pastor-músico Leonardo, criador da seita "Os Soldados da Pátria por Cristo", que passa o dia tocando saxofone pelas calçadas. Juntos, os dois proclamam as maravilhas religiosas em meio à miséria, à bebida e ao misticismo. Eles seguem uma vida errante, até que o pastor desaparece e a mulher se transforma em um lixo social, dormindo nos detritos, sem roupa e tendo que se cobrir com papéis e papelões nas ruas. Mergulhada na solidão, Camila não conhece os seus caminhos e procura se apegar a valores que a sociedade urbana brasileira desconhece em muitos momentos - religião, moral e ética. Trata-se de uma metáfora de uma geração que precisa sobreviver, mas não encontra empregos nem ajuda e tem que lutar sozinha para alcançar alguma posição social.
