
Tiradentes é mais do que um personagem histórico. É sobretudo um mito nacional, em parte construído para servir à causa republicana. Trazê-lo para o centro de uma obra poética, como faz Cecília Meireles, é empreitada de alto risco: heróis pedem grandiloquência. O Romanceiro da Inconfidência , no entanto, passa ao largo da armadilha. O propósito cívico da obra é temperado pela abordagem intimista em que a poeta é mestre. Cecília Meireles encontrou na tradição popular ibérica dos breves poemas narrativos a forma mais adequada para enfrentar a Inconfidência Mineira. Por serem orais, aqueles "romances" (daí "romanceiro" para o conjunto) privilegiavam a fluidez, a empatia, a comunicação imediata. Sua obra-prima tem tudo isso - e tem música também. Não apenas ritmo, mas harmonia. Quando, ao descrever a chegada de um traidor em sua montaria, ela diz "o cavalo bebe,/ na água, as nuvens do horizonte", é como se mudasse o tom de maior para menor, anunciando a tragédia vindoura. Cecília Meirelesnão cede à tentação de reconstituir a história. Se é fiel ao factual e às vozes dos personagens, não abre mão da liberdade de artista. É a invenção poética, ela diz, que "anima essas verdades de uma força emocional que não apenas comunica fatos, mas obriga o leitor a participar intensamente deles". O herói ganha, assim, dimensão humana: "A estrela do seu destino/ leva o desenho estropiado:/ metade com grande brilho,/ a outra, de brilho nublado;/ quanto mais fica um sombrio/ mais se ilumina o outro lado.' Oscar Pilagallo (fonte: quarta capa do livro)