"Nas noites de Verão, quando não havia muito vento, tínhamos por costume, como outras famílias, passear no Palácio de Cristal. Agora, é aquela alameda, entretanto ladeada por barraquinhas de tômbola e por stands de amostras, um vasto espaço de desolação. No mês a que me refiro, porém, de Agosto de mil novecentos e trinta e seis, e no serão que escolhi, realizava-se um concerto de beneficiência, oferecido pela Banda dos Bombeiros Voluntários do Porto. Tenho uma saudade imensa da enorme construção de vidro e de ferro, há anos demolida, a qual, a meus olhos de rapariga, ainda não afeitos às viagens, surgia como uma baleia extraordinária e transparante, ali arrojada, por uma dessas tempestades atlânticas que, no Inverno, sempre fustigam as costas do Norte. Lá dentro, abria-se um pequeno teatro e um restaurante médio e, ao fundo da maior das três naves, onde os meus passos se perdiam, erguia-se um órgão solene, a cujo teclado eu imaginava ir sentar-se, de cada vez, o misantrópico Capitão Nemo, tentando esquecer-se do ódio que nutria contra os homens que fazem as guerras."