Este estudo analisa de que forma o Ultimatum britânico de 1890 foi transformado numa catástrofe nacional e até que ponto a literatura da época é reflexo desta visão. Embora se tenha procurado reconstituir brevemente o momento histórico, foi sobretudo com base em textos literários, entre os quais se incluem a Pátria de Junqueiro e o polémico romance queirosiano A Ilustre Casa de Ramires, assim como inúmeros poemas espalhados pelos jornais e revistas da época, que procurámos ver as construções míticas que se lhes encontram subjacentes. Para além de focarem a questão africana, todos estes textos se afirmam como variantes de um modelo apocalíptico, cuja matriz se encontra no Apocalipse joanino, o último Livro do Novo Testamento. É assim que o mundo em queda (o Portugal decadente finissecular) será, depois da hecatombe (o Ultimatum), substituído por um «Novo Céu e uma Nova Terra». Para alguns, como Gomes Leal e Junqueiro, o mundo vindouro toma a forma de uma nova ordem política, a República. Para outros, como Eça, a forte reacção nacional ao Ultimatum é encarada como a oportunidade de levar a cabo o programa de regeneração nacional anunciado nas Conferências do Casino. É esta a mensagem de A Ilustre Casa. Contudo, qualquer que seja a filiação literária ou política dos autores estudados, todos partilham a crença num novo e eterno Portugal devolvido à perfeição do Jardim primordial.