Os «Contos do Imprevisto» são magistrais em termos de estrutura do conto, de variações sobre o suspense e o macabro e de desocultação selvagem do carácter inglês. Aparentemente, estamos num mundo de colecionadores de antiguidades, de velhinhas que tomam chá às cinco, de amáveis locatárias. Mas a banalidade burguesa esconde segredos tenebrosos, que passam muitas vezes pelo homicídio. É como o Hitchcock mais divertido e cabotino, apresentando as suas historinhas televisivas de crimes e criminosos como se fosse um avozinho inofensivo. Dahl usa o realismo na sua melhor tradição monótona (à la Somerset Maugham) mas revisita a tradição gótica que nos lembra brutalmente que as aparências iludem e que a normalidade esconde monstros. Roald Dahl usava esse humor negro e acrescentava uma marca pessoal inesquecível - o imprevisto -, quase sempre na forma de surpresa final, de epílogo abrupto e impensável. O imprevisto não é um exercício de feira mas um golpe de rins que nos mostra afinal que as coisas não são, nunca são, como nós pensávamos. É afinal nisso que as histórias infantis e a literatura de suspense de Dahl se encontram.