Colecção: Testemunhos. Cocteau viveu ao contrário da invisibilidade. Foi tão fotografado como Dalí ou Picasso, teve o seu rosto tão conhecido como o dos actores. Nas convivências mundanas encantava; encenava um jogo de mãos para cercar tudo de frases que não esqueciam a exibição de uma inteligência vertida em palavras com posições novas ou já esquecidas do seu sentido. Foi inevitável falar-se de uma renda. Os seus talentos—na escrita, no desenho, no cinema - apontavam ao despeito acusações de artifício, de brilhantismo enfeitado pelas facilidades do salão. Mas a sua rédea segura vencia. Era capaz de surgir moderno embora fiel às lições de Malherbe; de não recusar a prestidigitação se ela lhe garantisse um brilho de prosa. O desejo de uma modernidade clássica agarrou-o às mitologias e inscreveu nelas a explicação dos desesperos do seu tempo. Apareceu, com isto, sumptuoso e heteróclito.